ODE A BOLA
Marilucia Picanço – 24/06/07
Nasci, sozinha, e muito cedo fui levada ao Campo de Santana, uma praça, grande, no Rio de Janeiro, onde deixavam os gatinhos que ninguém queria.. Sozinha, e mui pequeninha, com fome e frio, perambulei por vários dias, longos e hostis.. até que de repente, em um dia de sol, meio morno, uma linda jovem, de cabelos negros como as asas da graúna, os olhos cor de âmbar, e um sorriso que era como se vários sininhos estivessem a tocar, me pegou no colo! Era como se um raio de sol me tivesse sugado daquele martírio, e eu, tive um susto, o que seria aquilo, meu Deus? Um milagre da vida?!!.. e, era um milagre, Deus existe! Fui cuidadosamente aconchegada em seu colo que era morno e doce, com um cheiro sutil de flores frescas, e de mel. Ela cuidou de mim, tratou as minhas feridas e fui, crescendo, alegre, renascendo em uma energia sutil, revigorante, cheia de amor e ternura!!, e, era assim que me sentia. A casa era alegre e cheia de vida, energizada com a alegria de minha companheira e dona, que estava sempre de bem com a vida. Apesar de tudo, sempre fui tímida, com uma energia, sutil, calada em meu canto... Nada, reclamei!! me tornei quieta, quase passiva.. Brincava às vezes com seu namorado, um jovem ruivo, saído do reino das fadas para me alegrar. Passeava no corredor, “imenso” do prédio, um mundo mágico! Brincava de esconde, esconde, com ele, uma beleza!!.. Ali fiquei, curei as feridas, a sarna, o desgosto. Meu pelo caiu e cresceu, lindo macio e cheiroso.. ela, a linda jovem, sempre a me cuidar.. De repente, não mais que de repente, mais uma vez a vida a me pregar peças. Ela, minha companheira-dona, me leva a casa de seus pais, em Brasília, se muda, muda sua rotina sua vida, e eu felina, apegada ao lugar sofri! E como sofri! Onde estava meu cantinho naquele pequenino e fofo apartamento de uma rua cheia de arvores com cheiro de mato em Copacabana? Me assustei, recuei mais ainda, me tornei arisca! O apartamento de seus pais era lindo, majestoso, grande encantado. Cada pedaço era uma descoberta, e eu me quedei encantada mais uma vez!!! As pessoas eram boas, discretas, o som era alegre, o cheiro de terra e mato, hum delícia!!... Hum, estou amando a nova vida! Mas retornei ao Rio de Janeiro, e desta vez, confesso que detestei a nova casa, cheia de fios soltos, fedorenta, uma bagunça danada!! Minha dona tentou me acalmar, me dando carinho e mimos, mas nada disto adiantava, eu estava chata e presunçosa, triste e melancólica, nada poderia mudar. Tiraram-me minhas trompas, me castraram para a vida sexual, eu ainda mocinha, e já não poderia procriar..triste, mui triste!!! Mas é a vida, que se poderia fazer? Eu estava fadada a perecer no Campo de Santana, agora estava feliz e confortada em um apê da rua das Laranjeiras porque sofrer? Mas não consegui evitar... E, assim após meses criei uma doença na pele que não sarava, acho que foi depressão, coisa de rico, me acostumei a ser assim.. chilicosa!! Minha dona vai a Europa, aproveitou um período de férias e sem me dar tempo de pensar, me coloca no avião, de volta a casa de seus pais, eu reconheci o apartamento, grande, lindo, cheiroso, cheio de mosquitos e mariposas para eu caçar... mas, nem tudo que reluz é ouro! Eis que aparece no pedaço um novo morador: pequenino, branquinho de olhos azuis, e meio marrento, seu nome: Jobim, ah isto lá é nome de gato?! Se bem que acho esta família meio maluca, pois meu nome era Beriloz, (pensavam que eu era um felino) depois passei a ser Cléo Berlioz, mas me chama de “ Bola” pode? Pois, bem hoje estou aqui neste apartamento grande, correndo com medo do novo gato da casa, e sem minha dona para me afagar... sua mãe, as vezes, me olha nos olhos, e cheia de ternura, tenta me acalmar, me afaga a cabeça, leio em seus olhos que ela quer me agradar, mas não consigo, estou vazia, triste, sem chão... sinto-me só, quase tão só como quando a linda jovem, me buscou no Campo de Santana...
Nenhum comentário:
Postar um comentário