Dona Nadyr, uma Flor de Bonina...
Nasci no inicio do século XX, na verdade quase na terceira década, e portanto sou uma pessoa do passado, mas minha mente sempre esteve avançada, penso diferente, vejo diferente e acho q nem sempre estou no compasso das outras pessoas.
Quando nasci, em uma família numerosa, eu era a ultima filha de oito irmãos... de uma família com amplos recursos... era neta de um antigo coronel destes de patente comprada e tudo... meu pai herdara as terças de meu avô, o Cel. João Peixoto da Rocha, e assim vim ao mundo em abundância e nada me fora negado, salvo a atenção de minha mãe que nesta época tornou-se enferma de uma doença debilitante, que imobilizava e doía-lhe a alma... era uma tal Artrite Reumatóide, desta que não se tem cura e até hoje a Medicina luta contra o mal provocado por ela sem grandes satisfações... minha mãe assim deu-me pouca atenção e meu pai fez como pode o duplo papel de pai e mãe... eu era o patinho feio daquela família. Todos casados ou quase casados viviam suas vidas despojados e soberanamente sem se importarem com o dia de amanhã...
Passei minha infância a pensar na vida, amadureci a duras penas pensando em mudar o mundo, mudar de vida, minha vida... tive momentos de sofrer e de glórias, amei, me apaixonei mas meu pai não aprovou.. fiquei so.. desolada, sem referência naquela pequena aldeia que hoje eh meu paraíso!!! O tempo passou,, estava quase velha para a época quando me encontrei com um jovem loiro quase ruivo do sertão, de longe da aldeia... e casei.. me fui para outras bandas, viver uma outra vida.. sentir uma outra dor..!!! Minha alma continuava sofrida, incompreendida, amargurada... não era aquilo que eu pensara!! Ledo engano de minha alma ingênua.. Tive seis filhos, uma bela prole.. todos sadios... inteligentes e alguns puxaram ao pai, generosos gentis, solidários... outros inquietos como a minha alma!!! Assim pensei que ao chegar a velhice aqueles lindos e amados filhos me tratariam com a força do amor que eu lhes dedicara.... mais uma vez a vida nos prega peças... nossos filhos não são nossos, mas filhos da vida como diria meu marido que foi cedo para o céu!! Fiquei viúva, e mais uma vez solitária em minha própria dor que parece querer mostrar a todo custo o quanto devo viver... Hoje completo 83 anos e me vejo lúcida, integra, com a mesma cabeça da jovem adolescente que um dia se apaixonou... meus valores entretanto hj são outros e minha paixão se resume a ir e vir na minha velha casa, local antigo que eu tanto detestara... mas meu corpo falha, as pernas não me obedecem, só sinto dor!! E meus filhos desconsideram meu sofrer e acham que soh reclamo que sou sofrida, nada me agrada, nada me ajuda a viver... fico no ostracismo histórico de nada poder fazer... nada poder dizer e as pessoas esquecem que um dia fui jovem, lutei, batalhei, corri, andei na chuva, no frio, no vento para que as coisas mudassem na vida de meus filhos... fiz muita coisa, briguei com o mundo....!!!
Era uma guerreira, era uma mulher ativa e meu grande defeito era reclamar para que as coisas andassem certas.. dessem certo para meus filhos.. eles não iriam passar o que eu passei eu jurei!!!
Tenho uma casa no sitio, lugar da antiga casa de meus ancestrais, local onde nasci e passei minha infância e as vezes me pego vendo os fantasmas de minha infância, de minha vida, passeando no jardim... as vezes choro sozinha a imensa dor de só ser... A imensa e triste verdade de que nada nem ninguém poderá viver por nós e me lembro de minha mãe, velha alquebrada pela dor do sofrimento com as articulações e suas passadas alquebradas me tornam o tempo presente em uma sucessão de valores reais que não posso mudar...!!!
Só me resta olhar dentro de mim e rever com saudades a minha infância e o imenso jardim da casa de meus pais todo florido, com seus lindos pés de boninas....
Paris, 31 de outubro de 2009, Marilucia escreveu em um afria noite de outono, esta ode a sua mãe Nadyr...!!!
Um comentário:
Simplesmente lindo! Você conseguiu captar exatamente a essência da alma da vovó! Texto maravilhoso de se ler...
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